sexta-feira, 19 de maio de 2017

Nossa Senhora do Rosário de Frecheira da Lama


Minha viagem pelo interior do Piauí partindo de Parnaíba até Cocal  foi muito rica e proveitosa. Tendo ao lado o historiador Diderot  Mavignier, autor do texto desta postagem, e profundo conhecedor do passado de sua gente.

Entusiasta das raízes formadoras do Estado do Piauí e particularmente de sua cidade natal Parnaíba, onde conhece cada palmo de rua, cada sobrado antigo assim como as mudanças e transformações que ao longo dos anos foi modificando a paisagem da litorânea e agradável Capital do Delta. Como pesquisador Diderot discorda das teses existentes quanto a data de fundação da cidade, motivo de acalorados debates o que é muito salutar tratando-se de história, uma ciência em contínuo movimento. Em breve vamos abordar o assunto. O texto ilustra magnificamente as fotos de minha autoria num dueto que pode ser repetido em futuras postagens.


Nossa Senhora do Rosário de Frecheira da Lama – Cocal / PI
Texto de Diderot Mavignier

Igreja de N S do Rosário de Frecheira da Lama em Cocal, Norte do Piauí. Sua fachada é composta por porta única com duas janelas à altura do coro, frontão triangular com óculo central não vazado e dois pináculos de baliza, elementos da arquitetura jesuítica dos séculos XVI e XVII na América Portuguesa.

No município de Cocal, a igreja de N S do Rosário de Frecheira da Lama desafia o tempo e os historiadores. Com uma referência na sua fachada, o ano de 1616, ou 1619, ela seria uma das provas da prioridade do Norte no povoamento do Piauí. À época, as terras eclesiásticas do Piauí pertenciam à Prelazia de Pernambuco que agregava as terras das capitanias de Itamaracá, Paraíba e Maranhão, e nesta, estavam as terras do Piauí. Tem o estilo jesuítico do início da colonização portuguesa e, pelo que sabemos até os dias atuais, nenhum documento da igreja de Frecheira foi encontrado, o que gera muita especulação, mas não dedicados pesquisadores. Desde o século XVI, os jesuítas construíram igrejas e casas comunais para os padres em regiões isoladas para promover a conversão dos nativos ao Cristianismo. Os padres, orientados pelos índios que conheciam a região, chegaram a um sítio com bastante água e muito verde.
Com a invasão, a Nova Holanda se estendeu de Pernambuco até às terras do Maranhão. Sendo as igrejas católicas desprezadas pelos flamengos que eram reformados calvinistas, a Sé de Olinda chegou a ser usada como estábulo. Neste contexto, igrejas perderam a sua função de templo católico, como as de Frecheira da Lama e São Lourenço de Tejucupapo.  Nesta localidade, ocorreu o famoso episódio das Mulheres de Tejucupapo, na luta para expulsar os holandeses da região. Mas como o Piauí ainda era terra no início de seu povoamento, e com o hiato católico provocado pelos holandeses, a ligação original da igreja de N S do Rosário com a sua Prelazia ou Bispado se perdeu no tempo, tornando-se difícil a localização de seus registros.
O sítio histórico de altaneiros buritizeiros e açaizeiros aonde se encontra a igreja de N S do Rosário de Frecheira da Lama tem uma beleza sublime. Nos últimos anos, enquanto o Nordeste brasileiro padecia de uma seca impiedosa que já durava seis anos, em Frecheira da Lama a água pura jorrava de seus olhos-d’água como por um milagre nesta joia encravada numa das mais espetaculares florestas verdes em pleno sertão nordestino.

 
Crucifixo no frontão da Igreja de N.S.do Rosário de Frecheira da Lama.
 Inscrição circular com as letras DRNS, no lado direito do frontispício da Igreja de N.S. do Rosário de Frecheira da lama. As iniciais em latim: Domini Regnum Noster Senior, que equivale à expressão "Do Reino de Nosso Senhor.


Datação circular com o ano de 1616, ou 1619 no lado esquerdo do frontispício 


Altar-Mor da Igreja de N.S. do Rosário de Frecheira da Lama.


                   
Casa comunal provavelmente construída posteriormente à Igreja. Tem o estilo bangalô das casas do sertão nordestino onde o telhado baixo avançando pela varanda protegia seus moradores do forte calor. Servia àqueles que zelavam pelo templo. 

  
Coro onde podemos visualizar o sino.
Lateral da Igreja

Um córrego de águas límpidas vindo dos olhos d'água da Frecheira da Lama passa pelos fundos da casa comunal. Ladeado por exuberante floresta permitiu a presença dos primeiros moradores.

O historiador Diderot Mavignier ao lado do córrego que fica nas proximidades
da Igreja de N.S. do Rosário da Lama

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