sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Efeméride de uma prisão política

Em dias de turbulência, onde desmemoriados e mal informados, tentam negar as ações truculentas da ditadura militar instaurada em 1964, recebo este relato, uma crônica da realidade nos tempos sombrios quando a democracia deixou de existir e o arbítrio tomou conta do país.


Professor Argus Vasconcelos


Crônica escrita pelo Professor Argus Vasconcelos, amigo e companheiro de lutas em defesa da Universidade Pública, gratuita, laica e de qualidade.

Efeméride de minha prisão política

No dia 05 de janeiro de 1970, há 48 anos atrás, fui preso pela ditadura empresarial-militar, em Brasília, quando tínhamos acabado de receber o certificado de reservista e descíamos alegres, eu e meus cinco companheiros, para comemorar o evento.
Na porta do Ministério do Exército, havia uma viatura (das famosas “veraneios”) com três agentes da PF. Desceram do carro e um deles, o mais velho, me deu voz de prisão: - “Polícia Federal, está detido pela Lei de Segurança Nacional”. Meus companheiros perguntaram o que estava ocorrendo e os agentes, de armas na mãos, disseram para seguir em frente. O sentinela do ministério ainda chegou a armar sua metralhadora, pensando tratar-se de um assalto.
Quando embarquei naquela viatura, pensei comigo que havia chegado a minha hora. Estávamos vivendo o início do governo Médici, e a ditadura recrudescia a repressão aos movimentos de resistência.
Cheguei preso a uma delegacia da Asa Sul, que era uma espécie de depósito para classificação dos presos políticos. Ao chegarmos, um agente de plantão perguntou: De onde é esse? Ao que responderam: do ME (movimento estudantil). Depois fiquei sabendo que a classificação inicial era: do movimento estudantil, do movimento sindical operário, camponês ou “terrorista” (do movimento armado de resistência), que era da barra pesada e logo encaminhados para a tortura no famigerado Doi-Codi.
Fiquei numa cela com beliches e logo reparei que tinha companhia, que estava enrodilhado numa cama coberto até a cabeça. Quando eu entrei, ele acordou e o reconheci logo; tratava-se de Issahan Yuseff, um dirigente do grêmio estudantil do CIEM da UnB, onde havíamos estudado e militado juntos no ME. Ele colocou logo o dedo na boca para que não nos falássemos. Issa, como era conhecido, era de origem palestina. Muitos anos depois, vim a saber que tinha voltado à Palestina e se integrado ao movimento de resistência palestina e lá teria morrido em combate com as forças de ocupação israelense.
Na mesma noite começaram os interrogatórios. Acordavam-me de madrugada e  numa sala com uma forte luz nos olhos, um interrogador que eu não via a cara, fazia ao perguntas, enquanto um datilógrafo escrevia numa máquina as respostas. As perguntas eram quase sempre as mesmas sobre as organizações, nomes e atividades de militantes do movimento. Eu tratava de esconder a identidade dos companheiros alegando os “nomes de guerra” que usávamos no movimento. Um dos interrogadores, então disse que eu não estava “entregando”, mas quando fosse levado ao Doi-Codi, sob tortura, eu iria contar a história toda.
Durante as noites na prisão, era sabido que o pessoal do Doi-Codi, chegava para buscar os presos para o interrogatório até meia noite e ouvi várias vezes, altas vozes que diziam nomes e endereços para serem avisados e vi também o seu retorno, depois de alguns dias, sendo arrastados pelo corredor com os corpos feridos e deformados pela tortura.
A partir de então, esse era o meu grande temor, de não suportar a tortura e revelar nomes e atividades consideradas “subversivas”. Então, tentei mentalmente montar uma versão coerente para não entregar ninguém à repressão. Versão que repetia toda vez que era interrogado, o que causava muita irritação aos interrogadores.
Depois de alguns dias de prisão, meu pai conseguiu localizar o meu paradeiro, graças a um seu parente general do exército. Quando veio me visitar me contou toda a sua longa peregrinação para localizar-me.
A partir de então, comecei a desfrutar de duas horas de banho de sol usando uma vassoura para varrer o pátio. Recebia o almoço que meu pai enviava, que era bem melhor do que a insuportável boia da prisão. Acabaram-se os intermináveis interrogatórios e terminei não sendo levado para a tortura no Doi-Codi.
Depois de um mês de cadeia, meu pai veio para soltar-me, recebendo todas as exigências da parte dos agentes de soltura: “Não pode fazer isso, não pode fazer aquilo” etc.
Foi a primeira vez que percebi a cara feia da morte de frente e fiquei impressionado com a minha calma determinação em cair com dignidade. Depois, peguei minha trouxa, respirei fundo e entrei no carro, olhando a paisagem pelo vidro da janela, senti que a vida valia a pena, pois, fazia um belo dia de sol em Brasília.

                                                           Argus Vasconcelos de Almeida
                                                           Recife, 05 de janeiro de 2018.

Professor Titular do Departamento de Biologia da UFRPE, pesquisador em história e filosofia das Ciências Biológicas.


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